Vivemos em uma sociedade na qual a evolução é constante e a privacidade de nossas vidas não é mais a mesma do passado. Fato esse que se deve a estarmos conectados com pessoas a milhares de quilômetros de distância instantaneamente! Você leitor está lendo esse texto, que foi escrito em Lisboa/Portugal, postado em um website de Paragominas/Pará/Brasil e grande parte dos leitores está acessando o texto de uma terceira cidade!

E somos muitos conectados em todo o mundo. No mês de dezembro de 2018 a ONU – Organização das Nações Unidas informou que pela 1ª vez na história a população com acesso internet superou a não conectada! A agência da ONU para telecomunicações (UIT – União Internacional de Telecomunicações) informou que o equivalente a 51,2% da população mundial está conectada, mais de 3,9 bilhões de pessoas.

 

A visão futurista do que será o “novo ouro” no futuro levou a utilização do ouro negro, o petróleo, como referência, nessa linha no inicio dos anos 2000 a afirmação era que o conhecimento que seria o petróleo do futuro. Hoje a previsão mudou e os dados são tidos como o novo petróleo. Sim, os dados, que na maioria das vezes não temos a menor noção do que são, de sua importância, como são aproveitados economicamente e quem lucra com isso.

IMG 20190103 WA0044 768x1024 - "Admirável Mundo Novo: Há privacidade no mundo digital?" - por Raphael Sampaio Vale

Aqui cabe a frase: “Não existe almoço de graça.” Concordo e comungo do mesmo. Sempre há um interesse, que pode ser o mais nobre de todos como o amor ao próximo ou como o mais maléfico de tirar a vida de outrem. E quais são os interesses da utilização de dados dos usuários seja pelas 04 grandes empresas de tecnologia (GAFA – Google, Amazon, Facebook e Apple), pelas plataformas, pelos aplicativos e demais empresas.

Pensemos no prédio do Campus Google que em São Paulo capital, tem 6 andares, muito bem localizado (próximo a Avenida Paulista, Paraíso). O 5º e o 6º andares são disponibilizados para os membros, para tornar-se um basta fazer o cadastro no website https://www.campus.co e comparecer no endereço portando um documento de identidade para validar o seu cadastro. Feito isso você terá acesso livre a esses andares onde funcionam como um coworking e café, de onde você poderá trabalhar utilizando uma boa conexão de internet gratuita, fazer reuniões, acessar o terraço, área de jogos, área do silêncio e cabines para ligações e videochamadas.

Além de São Paulo, essa iniciativa existe em mais 05 cidades no mundo: Londres (Inglaterra), Madri (Espanha), Seul (Coreia do Sul), Tel Aviv (Israel) e Varsóvia (Polônia).

Sem sombra de dúvidas a revolução digital é um dos fatores mais impactantes e transformadores em nosso dia-a-dia, principalmente pelo avanço das tecnologias da informação, em nossa forma de comunicação e organização de nossas vidas individuais e coletivas.

Atravessamos uma época de um dilúvio de informações, impossíveis de serem acompanhadas e absorvidas. Nunca se produziu e processou tantos dados. Como exemplo dessa velocidade cito o matemático português Jorge Buescu, que em sua obra Curvas Ideais, relações Desconhecidas e outras histórias da Matemática (1ª edição novembro/2018) afirma: “um cálculo que demora hoje 1 segundo demoraria em 1990, se fosse possível faze-lo, 180 anos.”

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Esse avanço tecnológico e de velocidade transformou a relevância do tempo e das conexões de uma forma quase imperceptível. Assim como a pauta do dia, o assunto “da hora” e as causas relevantes. Hoje o uso maciço das tecnologias ampliou o distanciamento entre as gerações que ainda são totalmente analógicos, os analógicos, os digitais e os totalmente digitais. Cada um com seus conceitos, prioridades, tempo distintos e visões sobre o que é a privacidade.

É verdade mudamos e mudamos muito. E pasmem, vamos mudar ainda mais! Até as relações familiares inverteram em alguns aspetos, as crianças hoje já nascem acreditando que todas as telas são “touch screen”. Alguns valores mudaram, a forma de consumo idem e uma estranha e crescente sensação de que “tudo” é normal e possível tem invadido nossas vidas e colocado o tema da privacidade de informações e dados em segundo plano para a maioria de nós.

Estamos hoje com nossas vidas e privacidade expostas voluntária ou involuntariamente. Só há uma forma da pessoa ter sua privacidade resguardada hoje em dia: não usar nenhum tipo de dispositivo que tenha conexão na internet! Ou seja, quase impossível! Como viver sem o smartphone e todos os aplicativos que facilitam nossa vida moderna? Sem o e-mail? Sequer conseguimos emitir uma passagem de avião se não tivermos email e cartão de crédito!

Analisemos um dia de nossas vidas: ao acordar, com o alarme do smartphone, já verificamos as notificações da agenda, dos aplicativos de mensagens (particulares, grupos das famílias, grupo profissional daquele grupo de amigos de longa data!), das redes sociais, em especial as “time lines” (as postagens que em pouco tempo desaparecerão!), dos e-mails. Ao acessarmos estamos conectados a uma rede de dados, ou seja, sem privacidade. Qualquer transação financeira eletrônica também expõe nossa privacidade, o sistema vai saber nossa localização, nossos hábitos de consumo, etc.

Essa nossa conexão constante resulta em uma super exposição e perda da privacidade. Além da proliferação de distúrbios e isolamentos na vida real, tornando os jovens reféns do contato virtual e alheios ao contato presencial.

Somos induzidos a consumir produtos e conteúdo gerados por análise de dados feitas por algoritmos e inteligência artificial.

Vejamos o curioso caso da série televisiva “House of Cards” produzida pela empresa de serviço streaming de vídeo norte americana NETFLIX. A definição do tema, do diretor e do principal ator foi feita com base na análise da utilização dos dados de seus clientes! Isso mesmo que você leu: a serie foi feita direcionada com a interpretação de dados, todos os cliques no controle na utilização da NETFLIX ficam resgatados e são passíveis de serem analisados. Ou seja, escolha do tema (um drama político), do ator principal (Kevin Spacey) e o diretor (David Fincher) não foi um acaso.

Qual o usuário da NETFLIX leu o contrato e autorizou conscientemente o uso de seus dados pela empresa? Quem após fazer uma pesquisa na internet de uma passagem aérea passou em seguida a receber várias ofertas sobre o destino pesquisado? Esses são exemplos simples de como nossos dados, hábitos, pesquisas e demais informações são utilizadas on line.

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Podemos ainda destacar os recentes escândalos com a ética do Facebook no tratamento dos dados, a venda de perfis para fins publicitários e políticos e além da ativação de cookies (é um arquivo pequeno enviado pelo site para o utilizador) e outros dispositivos nos aparelhos dos utilizadores.

 

Depois dessas histórias e reflexões ficam algumas sugestões para termos um pouco mais de privacidade na internet:

– Antes de postar lembre-se: depois de publicarmos o conteúdo deixa de ser nosso, mesmo uma simples postagem de linha do tempo (timeline) pode ser “eternizada”;
– Verifique as configurações de segurança e privacidade de seus aparelhos e navegadores;
– Existem ferramentas de busca que não utilizam os dados do usuário como os: https://duckduckgo.com, https://www.ecosia.org;
– Veja as configurações das ferramentas de busca que você usa (google, bing, yandex);
– Não clique em links desconhecidos ou suspeitos;
– Evite utilizar computadores públicos para acessar seu e-mail e redes sociais;
– Não acredite em todas as publicidades e propagandas da internet; e
– Muito cuidado ao digitar seus dados com o site e em qual aparelho e conexão que você estiver utilizando.

Esse é o Admirável Mundo Novo, requer nossa atenção, reflexões e equilíbrio!

Sobre o colunista:

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Raphael Vale é advogado. Foi o idealizador, co-fundador e presidente da Cooperativa Brasileira de Energia Renovável e Desenvolvimento Sustentável – COOBER. Realiza palestras entorno do mundo sobre energia renovável e distribuída e também sobre as relações jurídicas e as alterações climáticas. Atualmente, vive em Portugal, onde cursa o mestrado em Direito e Ciências Jurídicas: especialidade em Direito e economia, na Universidade de Lisboa.

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