A VIDA NUM SOPRO – Alfredo Guimarães Garcia
(Do livro “A arte de lavar louças & outras crônicas”, inédito)

A vida é um sopro. Uma folha ao vento. Sopros que fluem pelos céus das sílabas. Vento que nos leva adiante. Por que penso isso? Porque estou aqui diante de dois dos meus filhos, hoje homens adultos com 20 e 25 anos, respectivamente, na praça da alimentação de um shopping como outro qualquer, e eles me falam de suas vidas.
Falam com a propriedade das pessoas que têm os sonhos de suas vidas nas mãos, ou ao menos sabem onde vão chegar e como querem chegar àquele objetivo na vida. Eles sabem mesmo. Na idade do mais novo eu não sabia nem o que queria fazer no dia seguinte. Quando atingi a idade do mais velho eu já era pai de um menino e prestes a ser pai de outro, justamente este homem, barba na cara, à minha frente, que me conta de suas perspectivas, de seus sonhos que incluem no futuro formar uma família, tudo planejado, avaliado, analisado.
Começo a voltar os meus olhos para o passado e, como um velho sonhador que nunca se cansa de seu ofício, retorno aos dias em que ajudava ambos a trocar as roupas, a sentar no banco, nas cadeiras, a brincar com eles nos raros fins de semana de folga. Volto às manhãs insones, quando acordava as cinco da manhã para ajudar a prepará-los para irem às aulas, enquanto a mãe professora fazia o café, os lanches, o almoço do dia. Volto mais para trás ainda no tempo e lembro das madrugadas em que era a minha vez de fazer o leite morno do mais velho, e eu despertava atordoado, mas mesmo assim ia aquecer a água, sacudir a mamadeira, testar a temperatura do leite e alimentar aquele bebê.
Ouço meus filhos falando de seus projetos para a vida toda que eles têm pela frente e sinto orgulho. É um sentimento confuso entre o de um pai que sabe que fez o possível para educar seus filhos junto com a mãe em tempos que eram difíceis, e o de um admirador particular de dois seres humanos corteses, educados, inteligentes, amorosos. Palavras de um pai coruja? Talvez. Mas eles me dão a certeza de que é possível, sem dúvida, mudar o mundo se mudarmos as pessoas, ou melhor dizendo: se pudermos educá-las com carinho, paciência, disciplina e dermos a elas razões para sonharem e ferramentas para construírem seus sonhos.
São dois homens honestos à minha frente, que falam bem, sabem se expressar, são bem-humorados, e que me dão vontade de ficar mais um pouco nesse nosso estranho planeta, no qual cada vez é mais difícil encontrar pessoas assim. São dois homens que sabem que há um futuro enorme, rico em possibilidades, mas que vão procurá-lo a partir de agora, no presente. Dá ou não dá um orgulho danado de ter ajudado a educar pessoas dessa estirpe?
Penso que eles saberão o que devem buscar; penso que eles estão certos de trilhar essa caminhada – que nunca termina – juntos com suas companheiras que vieram se juntar a eles. E sonho com o dia em que eles me chamarão pelo telefone, pela internet, numa postagem no Facebook, ou pessoalmente para me apresentar aos seus meninos ou meninas. Nesse dia eu vou achar ainda mais que, junto com minha mulher, valeu cada sacrifício, cada espera, cada angústia, cada sofrimento, cada lágrima. E vou dizer a eles, direcionado aos que vierem depois, a esses filhos ou filhas dos meus filhos:
— Deus lhes dê um grande futuro.
Com os pais que eles terão, com certeza, isso será realidade.


Sobre o autor:

Alfredo Guimarães Garcia é escritor com mais de 40 livros publicados, entre contos, crônicas, poesia e infanto-juvenil. É bacharel em Comunicação Social, especialista em Teoria Literária e Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Pará. Atua como professor do ensino superior no curso de Comunicação Social/Jornalismo da Estácio FAP, em Belém do Pará, desde 2010.

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