Em tudo na vida somos levados a fazer escolhas, seja como indivíduos seja como sociedade, e ao nos depararmos diante de múltiplas escolhas não tem jeito, somos obrigados por escassez de recursos, a ter que escolher por uma ou algumas delas, todas não dá. Além disso, não é segredo para ninguém que as escolhas que fazemos hoje afetam nossos passos futuros e graças a Isaac Newton temos até uma forma bonita de expressar isso: Dizemos que existe uma relação de causa e efeito que nos permite prever acontecimentos futuros ou entender acontecimentos presentes baseado no que foi feito antes. É exatamente por isso que nos preocupamos tanto com as escolhas que fazemos hoje, pois sabemos exatamente (ou pelo menos pensamos que sabemos) como elas podem nos afetar no futuro. Na teoria parece simples, mas como dizem nossos sábios ribeirinhos: Seu doutor, na prática a teoria é outra! Talvez um dos melhores exemplos do quão difícil é estabelecer uma relação de causa e efeito seja o dilema de tostines. Creio que os mais jovens não devem se lembrar, mas as pessoas com um pouco mais de experiência lembram-se muito bem do famoso dilema da propaganda do biscoito onde um perguntava-se: Tostines vende mais porque é gostoso ou é gotoso porque vende mais?

Diante do pacote de escolhas que podemos fazer como sociedade uma delas é bem interessante pois é capaz de dividir o mundo em dois grandes grupos, o grupo 1 sendo formado pelos países geradores de conhecimento científico e o grupo 2 composto por aqueles que não tem tradição em gera-lo (o Brasil, para variar, está no meio do caminho). E porque é interessante dividir o mundo entre países que escolhem gerar uma grande quantidade de conhecimento científico e países que não o fazem? A questão é que existe uma relação de causa e efeito que nos força a considerar essa opção com muito cuidado. Países que possuem tradição cientifica são também muito prósperos, possuindo bons indicadores econômicos e sociais. Diante dessa óbvia relação, é impossível não lembrar da famosa propaganda do biscoito: Sociedades que investem em ciência básica o fazem porque são ricas ou são ricas porque investem em ciência básica? Em outras palavras, qual será o segredo de tostines?

IMG 20180730 WA0017 1024x768 - Qual será o segredo de tostines?  A necessidade de investirmos em ciência - por Newton Barbosa
Faço essa pergunta pois o estabelecimento dessa lógica nem de longe é óbvia, e sim, muitos ainda acham que investir em pesquisas que tem como objetivo o entendimento de buracos negros ou das leis que governam o comportamento de moléculas é algo caro demais para que um País como o Brasil, que possui inúmeras demandas sociais, possa arcar. Tal afirmação é baseada no fato de que o setor de ciência e tecnologia é sempre um dos primeiros a ser afetado pela mais remota previsão de crises econômicas, ou seja, o Brasil é um país que ainda enxerga o investimento em ciência básica não como um investimento, mas sim como um luxo, um mimo que tem como função nos dar um aspecto mais civilizado diante do mundo. Bem senhores, estamos errados, pois diferente do dilema do biscoito, aqui nós temos como estabelecer o sentido na relação de causa e efeito. Para isto basta lembrarmos de algumas ideias simples.

Partindo do princípio que nosso estado natural é a pobreza, somos capazes de evoluir deste para o estado de prosperidade a partir da nossa capacidade de acumulação de riqueza. O ponto é que nossa capacidade de acumulação de riqueza é diretamente proporcional às tecnologias de produção existentes e estas por sua vez derivam diretamente de nosso entendimento básico dos processos naturais, ou seja, de nosso conhecimento cientifico. Logo, quanto mais soubermos sobre os aspectos básicos da natureza, mais teremos capacidade de desenvolver novas tecnologias produtivas o que aumenta nossa capacidade de geração de riqueza. Bem até aí tudo bem, mas e porque não podemos dar uma de espertos? Note! podemos ser inteligentes e deixar que nações ricas gastem seu dinheiro gerando conhecimento cientifico e depois podemos usar esse conhecimento para gerar nossas tecnologias e ficarmos ricos (ah! O jeitinho). Sem querer desanimar os adeptos do jeitinho, mas temos um problema com essa ideia: As leis básicas da economia (eu sei os economistas gostam de atrapalhar nossas ideias maravilhosas).

Em termos bem simplistas o problema surge, pois, quanto mais inovadora for nossa tecnologia, ou seja, nossa capacidade de produzir, menos concorrentes teremos e mais valor podemos agregar aos produtos nessa fase inicial da produção. No entanto, para desenvolver novas tecnologias precisamos de conhecimento científico, e quanto mais novo for esse conhecimento mais nova será nossa tecnologia. As sociedades que optam por usar ciência descoberta por outras, possuem um delay no processo de absorção desse conhecimento que custa muito caro. Esse atraso, é decorrente de uma outra verdade inexorável: Entender novas leis básicas da ciência não é uma tarefa trivial, e sim, toma tempo. Logo, quem as descobre primeiro larga na frente. Um exemplo clássico é a mecânica quântica. Na primeira metade do século XX, se algum brasileiro olhasse os cientistas europeus e americanos desenvolvendo essa teoria iria irremediavelmente pensar que não passavam de um bando de intelectuais ricos jogando tempo e recurso fora para dizer que o átomo se comporta assim ou assado. Pois é, fizemos isso, e é justamente por isso que o vale do silício é no Estados Unidos e não no Brasil. O vale do silício, que não existiria sem a mecânica quântica, é consequência direta da postura agressiva que os Estados Unidos tiveram em criar uma base cientifica sólida desde o final do século XIX. Para isto, criaram o moderno sistema de pós-graduação, copiado hoje no mundo todo, investiram na importação das mais brilhantes mentes do mundo (fazem isso até hoje) e a mais de um século mantem de forma regular um padrão de financiamento de pesquisa básica, que embora não seja perfeito, é de dar inveja em muitas nações incluindo aí o Brasil.

É claro que tentar estabelecer a geração de conhecimento cientifico como única variável no processo de desenvolvimento de um País é um pouco exagerado até porque o problema do desenvolvimento é o que denominasse de problema de múltiplas variáveis. Todavia, temos dados suficientes para estabelecer que gerar conhecimento cientifico novo é condição, embora não suficiente, necessária para atingirmos a prosperidade. Até quando continuaremos sem entender o segredo de tostines? Não sei, só sei que está ficando cada vez mais caro. Quem sabe um dia entendamos, ou não.

Sobre o colunista:

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Newton M. Barbosa Neto é mestre e doutor em Ciências (Física Básica) pela Universidade de São Paulo – Campus São Carlos. Foi Professor da Universidade Federal de Uberlândia de 2005 à 2014, onde desenvolveu pesquisas sobre propriedades espectroscópicas de moléculas e ministrou cursos tanto a nível de graduação quanto de Pós-graduação. Entre 2010 e 2011 realizou estudos de Pós-doutoramento na Universidade Federal de Minas Gerais, investigando propriedades ópticas e mecânicas de nanoestruturas de Carbono. Atualmente é pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq), Professor temporário do Graduate Faculty of the University of Alabama (USA) e Professor Associado do Instituto de Ciências Exatas e Naturais da Universidade Federal do Pará (UFPa), onde Co-fundou o Grupo de Espectroscopia Eletrônica e Vibracional no Programa de Pós–graduação em Física da UFPa.

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