Consumir é um ato diário e automático, de grande parte da população mundial. Nas casas, nos escritórios, nos shoppings centers o consumo de energia elétrica, água, gás é feito continuamente. Assim como praticamente toda comida e água potável são compradas por consumidores.
O consumo é tão forte em nossa sociedade moderna/industrial que tem até legislação específica para defender o consumidor! No Brasil temos o Código de Defesa do Consumidor – CDC (Lei 8.078, de 11 de setembro de 1990). Aproveitamos para definir consumidor com as palavras do CDC no artigo 2º:
Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final. Ou seja, somos todos consumidores em alguns vários momentos de nossa vida. Essa é a realidade na maior parte do mundo de hoje, com exceção de algumas comunidades que são baseadas na agricultura de subsistência.
Essas pessoas que produzem o que consomem são os “prosumidores”, termo que foi pela primeira vez mencionado pelo escritor e futurista Alvin Toffler, que em seu livro “A Terceira Onda”  (publicado em 1980) apresenta esse conceito que nada mais é do que a junção de produtor e consumidor em uma única pessoa, aquele que consome o que produz.
Para compreendermos melhor a crescente presença dos prosumidores na economia vamos realizar uma rápida viagem na evolução da humanidade segundo a teoria das ondas de Alvin Toffler.
A 1ª onda: a agricultura 
Hoje é muito comum falar em inovações, mudanças e disrupturas. Porém, esses fenômenos não são exclusividade da era atual, o ser humano sempre percorreu a trilha da melhoria de vida: o fogo e a roda são exemplos clássicos disso.
Porém, o que provocou uma profunda e significativa mudança foi a agricultura, que ocorreu a mais de 10.000 anos atrás. Foi quando os seres humanos deixaram de ser nômades (buscar os alimentos na flora e na fauna) o que requeria áreas enormes e um deslocamento das comunidades em busca da sobrevivência sem uma morada fixa em determinado local.
A agricultura que consistiu a percepção da possibilidade de plantar as sementes e colher o que foi plantado suprindo a necessidade de alimentação das pessoas e animais, acabou por fixar as comunidades e foi uma revolução gigantesca.
Nessa era da agricultura surgiram inúmeras evoluções sociais, culturais, artísticas.
A segunda onda: a industrialização
A era industrial se iniciou aproximadamente no fim do século XVIII  início do século XIX. Com o surgimento de motores a vapor teve início a industrialização na produção de bens e a ampliação da capacidade de produção, que aconteceu com a utilização da energia elétrica e o uso dos combustíveis fósseis, em especial o petróleo.
A industrialização trouxe, também, inúmeras mudanças na sociedade, na família, nas cidades e principalmente no nascimento do “consumidor moderno”. Essas mudanças ocorreram em séculos e depois em décadas, uma aceleração muito maior que na primeira onda (era da agricultura) em que as mudanças demoravam milênios e depois séculos.
Essa sociedade de consumo em massa é fruto direto da industrialização da sociedade e a consequente produção em massa de produtos.
A sociedade passou a ter uma centralização excessiva, criou-se o conceito moderno da economia e iniciou-se uma polarização entre capital e o trabalho. Que foi pano de fundo para a “divisão” entre  dois sistemas político-econômicos o capitalismo e o socialismo, bem caracterizado na “Guerra Fria” após a 2ª Guerra Mundial, que tinha o bloco capitalista liderado pelos Estados Unidos e o bloco socialista pela antiga União Soviética.
Mas, o que pouco se é falado e debatido é que ambos os sistemas baseavam-se no industrialismo e centralização do poder, com as seguintes peculiaridades (em linhas gerais):
– capitalismo – indústrias privadas com o objetivo de lucro e acumulação de riquezas para o investidor (capitalista); e
– socialismo – indústrias públicas com o objetivo de gerar riquezas para o governo .
Capitalistas ou socialistas, as grandes corporações da segunda onda (a era industrial) eram extremamente grandes, centralizadas, complexas e com muitos trabalhadores.
As pessoas passaram a ter que comprar de tudo e não produziram praticamente mais nada, além de seu trabalho vinculado as indústrias. Consumo esse impulsionado para bens supérfluos, em especial no capitalismo, que desenvolveu a “indústria” da publicidade para estimular a venda de produtos e criar novas “necessidades” e hábitos de consumo.
O “American way of life” (o modo de vida norte americano) contaminou o mundo e passou a ditar a moda, a economia e  até os hábitos alimentares. Exemplo clássico disso foi o aumento do número de pessoas obesas nos Estados Unidos pela alimentação  “fast food”.
Essa padronização subliminar do mundo trouxe inúmeros problemas que vivemos e não percebemos. O mundo tornou-se mais artificial, produtor e consumidor foram separados, produção em massa, surgimento da poluição das fábricas e motores a combustão, ausência de equilíbrio entre a utilização da natureza e a extração dos bens naturais.
A terceira onda: a era da informação
Essa é uma revolução que começou de forma tímida e silenciosa no final dos 1950, com os computadores da época e o fenômeno do número de trabalhadores nas indústrias ser ultrapassado por trabalhadores em escritórios, prestadores de serviços e outras atividades urbanas. Por exemplo, a cidade norte americana de Detroit (Michigan), considerado o berço da indústria automobilística, que em apenas uma única fábrica, River Rouge Complex da Ford Motors, tinha em torno de 100.000 funcionários trabalhando em turnos na década de 1930.
O número dos empregos industriais eram 296.000 em 1950 e diminuíram para apenas 27.000 em 2011.
O uso da tecnologia da informação e robótica, principalmente na indústria, provocaram mudanças aceleradas e incertezas em atividades económicas até então estáveis e tidas como sólidas.
Na Era da Informação (terceira onda) as mudanças passaram a se operar no início em décadas e agora já estão em anos. Nos últimos 20 anos, a aceleração das transformações que a revolução tecnológica nos proporcionou são impressionantes, vejamos alguns exemplos:
– Comunicação – o telefone móvel é hoje a principal forma de comunicação, principalmente através de aplicativos (app).
– Música – hoje se ouve música através de serviços que disponibilizam as músicas ou rádios via internet.
– Transporte urbano – os moradores de cidades utilizam plataformas de transporte para se locomover, seja de veículos com motoristas (táxis ou Uber) ou através de carsharing, caronas, bicicletas e patinetes elétricos.
Prosumidores
WhatsApp Image 2019 02 04 at 19.02.03 1024x768 - "Admirável Mundo Novo": Prosumidores e o futuro do consumo - Por Raphael Vale
Uma das principais mudanças que está acontecendo na sociedade atualmente com as aceleradas disrupturas tecnológicas é a forma de consumir, e que pode ser resumida na mudança de atitude. Essas transformações todas nos colocam frente a situações que já estão incorporadas em nossas vidas e ações.
Antes o agricultor seguia o horário da natureza para acordar, plantar e colher. A industrialização impôs o horário da fábrica, o que afetou a estrutura familiar e social colocando os horários de trabalho em indústrias, lojas e escritórios.
Hoje percebemos uma “revolução” na mudança de hábitos com a preocupação da população em saber de onde vem os produtos e serviços que consomem e mais uma transparência muito maior no compartilhamento de informações e notícias.
E quem são os prosumidores? A seguir alguns exemplos de prosumidores atuais:
– as pessoas que cultivam prioritariamente para consumo alimentos em pequenas hortas e/ou fazendas urbanas. Em 2017 haviam em Detroit 1.600 fazenda e hortas orgânicas, que forneciam alimentos a 50% da população da cidade gratuitamente, através do trabalho de 8.000 voluntários no cultivo de frutas e legumes (dados extraídos de reportagem de Gabriela Monteiro, na revista Exame em 14/12/2017);
– consumidores de energia que geram sua própria energia de forma individual o coletiva (cooperativas). Segundo dados da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) aproximadamente 55mil consumidores de energia produzem energia no Brasil no sistema de compensação da energia gerada (geração distribuída em micro e mini geração), dos quais quase 41mil são prosumidores residenciais dos quais 99,84% utilizam o sol para produzir energia; e
– um usuário de um serviço que responde a uma pergunta e/ou presta um serviço para uma plataforma e/ou empresa que lhe “remunera” com serviços e/ou bônus. Quando um prosumidor de um aplicativo indica determinado número de novos utilizadores e  recebe um “prêmio” por isso, em alguns casos recém até dinheiro!
Esse é o admirável mundo novo dos prosumidores, que precisa ainda de uma regulação econômica mais adequada e que mais do que tudo está realizando uma transformação em alguns conceitos chaves da economia como a “sagrada” propriedade que hoje é cada vez mais abalada por modelos novos de negócios como coworking, crowdfunding e a economia compartilhada.
Sobre o colunista:
Raphael Vale é advogado. Idealizador, cofundador e primeiro presidente da Cooperativa Brasileira de Energia Renovável e Desenvolvimento Sustentável – COOBER. Realiza palestras entorno do mundo sobre energia renovável e distribuída e também sobre as relações jurídicas e as alterações climáticas. Atualmente, vive em Portugal, onde cursa o mestrado em Direito e Ciências Jurídicas: especialidade em Direito e economia, na Universidade de Lisboa.

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