NO MEU TEMPO – Alfredo Guimarães Garcia

(Do livro “A arte de lavar louças & outras crônicas”, inédito)  

Há quem suspire de saudades pelas épocas passadas; outros há que verbalizem assim suas reminiscências:

— No meu tempo…

Que tempo perdido é esse?

Que paraíso ficou lá nas remotas cercanias do tempo que já percorremos?

Esse melancólico retorno a determinado período da nossa vida, decerto tem muito a ver com o presente que é vivido. Via de regra trata-se da infância, quase sempre vista como a vasta terra da pureza, inocência e simplicidade.

Se o nosso hoje é um oceano de frustrações; uma avalanche de problemas que entulham a nossa alma; então, meus caros e minhas caras, mesmo que o passado não seja dos mais generosos em momentos felizes, ele acaba sendo superior em mil furos acima do que o horror dos nossos hodiernos dias.

Não é que um reviver, um tornar ao tempo em que julgamos ter sido felizes seja de todo ruim. Não, como diriam os franceses, au contraire. O problema é persistir por muito tempo nessa fantasia, uma fuga da realidade que jamais resolverá os problemas correntes. Quem vive de passado é museu, não nos alertaram nossos pais e tios? Então!

Nós somos o acúmulo de nossas experiências. Temos em nossa pele, em nossa memória, plasmadas das mais diversas formas, essas marcas do tempo. Nada as substitui, creiam.

Quando alguém (volta e meia) retorna com a lengalenga da já surrada expressão “no meu tempo”, eu tenho ganas de vontade de atirar-lhe na face que essa pessoa já chegou a esse nosso tempo de agora exatamente porque superou o ontem, caminhou em busca de um futuro que é esse presente em que vive, literalmente.

O problema, humano e semântico que seja, é que muitos de nós permanecemos conjugando os verbos e a vida no passado. Tudo passa; tudo passará. Alguém lembra desta canção interpretada por Nelson Ned? Traduzindo para o vulgo o texto bíblico do Eclesiastes, que nos ensina assim: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu”.

Do ontem devemos guardar as boas memórias: são elas que nos constroem. O nosso tempo será sempre Quando.


Sobre o autor:

Alfredo Guimarães Garcia é escritor com mais de 40 livros publicados, entre contos, crônicas, poesia e infanto-juvenil. É bacharel em Comunicação Social, especialista em Teoria Literária e Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Pará. Atua como professor do ensino superior no curso de Comunicação Social/Jornalismo da Estácio FAP, em Belém do Pará, desde 2010.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui