Por RFI

“Desnutrição cultural” foi a expressão criada pela psicanalista Sophie Marinopoulos para designar o mau desenvolvimento relacional e de linguagem em crianças de 0 a 3 anos superexpostas a tablets, smartphones e outras “tecnologias do isolamento”. Em um relatório sobre “crianças e telas”, entregue em 4 de junho ao Ministro da Cultura da França, Franck Riester, ela analisa uma sociedade onde tudo se acelera, inclusive dentro do universo infantil. Marinopoulos conversou com exclusividade com a RFI sobre o conceito e suas implicações na vida dos pequenos.

A “saúde cultural” das crianças, especificamente de bebês de 0 a 3 anos, é um assunto levado a sério na França. Em junho, a pedido do ministro da Cultura, a psicanalista especialista em primeira infância Sophie Marinopoulos entregou um relatório nacional que descreve o processo de “desnutrição cultural” entre os pequenos, uma “ameaça à vitalidade de nossa capacidade de se relacionar e de estabelecer pontes com os outros, um processo essencial no desenvolvimento dos bebês e crianças”.

Segundo ela, o problema toma proporções de uma verdadeira epidemia, que necessita soluções de saúde pública para ser combatido com eficiência. Em setembro, Franck Riester anunciará uma série de medidas culturais que visam a corrigir o problema, com ações concretas que dizem respeito diretamente à saúde e ao desenvolvimento de bebês e crianças franceses, elaboradas a partir do documento entregue em junho pela psicanalista.

A iniciativa do relatório entregue a Riester partiu de um encontro com a ex-ministra da Cultura da França, Françoise Nyssen, que buscava soluções “para a democratização da cultura” no país. “Ela queria que a cultura entrasse em todos os lares, e que todas as crianças possam beneficiar dela.

Esse desejo veio de encontro à minha experiência de 35 anos de trabalho com pais e crianças pequenas, e de 20 anos à frente do Les Pâtes au Beurre (Massa na manteiga, em tradução libre), uma espécie de cozinha onde os pais podem vir com seus filhos pequenos, apreciarem juntos uma refeição. É anônimo, não precisa marcar nada, basta entrar e conversar sobre sua relação e dificuldades com as crianças”, diz. O atual ministro da Cultura, Franck Riester, decidiu dar continuidade ao projeto de sua antecessora.

Na França, conta a psicanalista, a marcação de uma consulta no serviço público para acompanhar este tipo de questão pode ter filas de espera de até um ano. Associação sem fins lucrativos, mantida por subvenções públicas, o Les Pâtes au Beurre está presente em cidades como Nantes e Vannes, e inaugura agora uma nova sede em Paris.

Durante a reunião no Ministério da Cultura da França, foi evocada “uma estratégia nacional para a saúde cultural das crianças”, revela a psicanalista. A ideia é promover e incentivar o despertar cultural e artístico dos pequenos desde o nascimento até 3 anos de idade. “É um verdadeiro desafio sanitário, de saúde pública. A desnutrição cultural é um conjunto de comportamentos que bloqueiam a qualidade da relação entre pais e filhos, prejudicando diretamente os vínculos sociais dessa criança”, diz Marinopoulos.

“Quando não temos palavras para nos exprimir, tornamo-nos violentos”

“Durante meus 30 anos de trabalho com essas famílias, pude verificar a que ponto a relação entre pais e filhos tem empobrecido, a que ponto os pais tinham dificuldades em entender as necessidades de suas crianças, mesmo desejando o melhor para eles”, diz. Sophie Marinopoulos evoca a expressão “culturas bloqueadoras” para se referir ao problema. “As crianças não têm mais tempo de interpretar o mundo em que vivem.

É preciso lembrar que a saúde dos humanos é antes de tudo cultural, tudo o que diz respeito à saúde de nossas relações, à nossa capacidade de conviver com outras pessoas, de nos conhecermos, nos suportarmos, compreender nossas diferenças, de compartilhar”, avalia. A psicanalista assume integralmente a ponte que estabelece entre saúde e cultura. “Nós, humanos, começamos nossa história de vida sempre em relação ao Outro. É o que nos caracteriza. Tudo o que é linguagem, o que é simbólico e afetivo, vem daí e é primordial”, analisa.

“Na vida em geral, quando não encontramos palavras para dizer o que precisamos dizer, é ali que nos tornamos violentos. O que os linguistas ensinam, e os psicanalista concordam, é que quantos mais palavras e vocabulários dispomos para nos exprimir, menos vontade temos de sermos violentos em relação a alguém”, conta Marinopoulos.

“É por isso que é essencial acompanhar nossas crianças na qualidade da linguagem. Que eles saibam exprimir suas emoções, ao invés de ir bater nos colegas na escola”, diz.

A psicanalista lembra que o vocabulário das crianças pequenas se encontra hoje cada vez mais empobrecido dentro da estrutura da linguagem. “O problema não é concentrado nos pais ou nas crianças, mas diz respeito a toda a sociedade contemporânea. Queremos filhos, mas sem infância: eles não devem fazer barulho, nem se mexer muito. Nós falamos muito sobre a frustração das crianças, mas não sobre a dos adultos”, diz.

O problema não são os tablets e smartphones, mas como são usados

Para Marinopoulos, a modernidade exige um desempenho e uma eficiência imediatos. O problema, segundo ela, é que o aprendizado infantil vai na contramão dessa “performance otimizada” desejada pelos adultos. Para aprender, uma criança deve fazer experimentos repetidos e, obviamente, passar por repetidos fracassos.

“Não me oponho a tablets e smartphones”, diz, “todos utilizamos essas pequenas telas e nossos bebês nos observam enquanto as utilizamos. Não podemos simplesmente isolar as crianças desta tecnologia”, reconhece.

“O problema é o tablet, o smartphone ou a televisão que são utilizados para evitar o relacionamento”, avalia.

“Os pais querem ficar tranquilos em casa, ou não querem discutir e brigar com seus filhos, e então ligam a telinha. Isso se chama ‘evitar uma relação’ e é exatamente aí que acontece a ‘desnutrição cultural. Eu aceito a tela, mas que possamos conversar junto dela. Uma criança pequena de quem você tira uma foto com smartphone, ela vai imediatamente querer ver sua imagem. Se você brinca, mostra, contextualiza, direciona, diverte, existe uma relação acontecendo, uma relação que será definitiva para a boa integração da criança no tecido social”, afirma a profissional.

Segundo a psicanalista, quando isolamos uma criança com dispositivos tecnológicos, empobrecemos “todos os seus primeiros ganhos em termos de linguagem”. “Uma criança pequena colada na tela não terá um bom desenvolvimento motor, e sabemos bem que o pensamento nasce no corpo, o pensamento é corporal. É porque a criança experimenta seu corpo é que ela vai pensar. Ela pensa a partir de seu corpo, de suas emoções”, diz.

“Se colamos as crianças nas telinhas, eles não passam por essas etapas de interpretação do mundo, fica empobrecido”, afirma Marinopoulos, que diz questionar “uma sociedade adulta em que as crianças precisam encontrar muitas estratégias para chamar nossa atenção”.

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Xiaomi Mi9, smartphone chinês — Foto: Thiago Lavado/G1

Soluções

No documento entregue pela psicanalista ao Ministério da Cultura da França, existem propostas concretas para combater o que ela considera uma “epidemia”. É o caso de uma mudança estrategicamente solicitada na chamada “caderneta de saúde da criança”, documento adotado na França que contém todas as informações médicas relativas a uma pessoa, até seus 16 anos. A caderneta é entregue na maternidade após o nascimento do bebê.

“A caderneta é hoje concentrada apenas em medições e números do corpo. O peso, o tamanho, o perímetro craniano, a idade em que a criança andou pela primeira vez, se ela enxerga ou escuta direito, quantas mamadeiras etc. Não existe absolutamente nada sobre seu desenvolvimento geral. Sua curiosidade, pelo que ela se interessa, suas preferências musicais, seus livros preferidos, não sabemos nada disso. Seus pais o levaram ao museu? A Organização Mundial de Saúde (OMS) fala de desenvolvimento global, mas na caderneta de saúde não há nada sobre isso”, relata.

“Está na hora de integrar essa noção de saúde cultural, a saúde de nossas relações, a esse documento oficial. É preciso saber como a criança se relaciona com seus jogos, com sua família, com as artes. Isso precisa aparecer na caderneta e, claro, ser acompanhado de uma formação de todos os profissionais de saúde, médicos e paramédicos, inclusos aí clínicos-gerais e pediatras, que possuem um olhar geralmente voltado mais para o corpo da criança”, antecipa Sophie Marinopoulos.

“A segunda proposta que apresentamos ao Ministério foi a exigência de uma consulta ‘longa’ anual para as crianças pequenas. É o nome que damos a um tipo de consulta que custa mais caro [ao Estado], e a que, por exemplo, as pessoas com deficiência têm acesso hoje. A ideia é fazer um mapeamento da saúde global e cultural da criança neste momento”, explica.

“É claro que gostaríamos que em todos os locais de acolhimento gratuitos e de proteção à maternidade e à infância que existem em França, as atividades fossem acompanhadas de presenças culturais, música, teatro, movimento. Que não seja, por exemplo, apenas um lugar que dá conselhos sobre valores nutritivos de alimentos”, finaliza a psicanalista.

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