— Por Arnin Braga

O ser humano é o único animal temporal que vive na Terra, em outras palavras, é o único ser que percebe a passagem do tempo no mundo, em sua própria vida e reflete sobre isso. A memória é a estrutura que nos permite não somente guardar os acontecimentos passados, mas também, vivenciá-los novamente na consciência. Apesar desta característica ímpar da humanidade, o ser humano também padece de outra particularidade que se apresenta como o oposto da memória: o esquecimento. Padecemos do esquecimento. Ele se faz mais presente em nossas vidas do que podemos imaginar. Em algumas ocasiões o esquecimento é uma estrutura necessária, quase instintiva, para que possamos viver. Mas na maioria das vezes, o esquecimento esconde valiosos ensinamentos e pode perpetuar situações de injustiça pelo simples fato de não lembrarmos que um dia as coisas foram de outra maneira, e que um outro mundo não somente foi possível, como existiu de fato. Memória e esquecimento perpetuam um jogo dialético durante toda a história da humanidade, como se tal movimento nos provocasse freqüentemente à reflexão.

Neste sentido, recorrendo a sabedoria dos mitos e das tradições antigas, podemos notar que desde os primórdios da humanidade esse jogo entre “memória” e “esquecimento se faz presente. Para os gregos antigos, por exemplo, o esquecimento era pior que a morte, ou melhor, a pior das mortes. Na célebre obra de Homero, Ilíada, o herói Aquiles é convocado para a Guerra de Tróia e pergunta-se se vale a pena arriscar sua vida – sua única vida – em tal aventura mortal. A ele se apresenta o seguinte dilema: pode escolher ficar entre os seus familiares, tendo uma vida pacata e longeva, porém esquecida; ou pode optar por ir à guerra, ter uma vida heróica e curta, porém lembrada por gerações. Aquiles escolhe a segunda opção, pois nada era pior do que esquecimento para o grego antigo, nem mesmo uma morte certa na guerra.

Por outro lado, se recorremos a tradição judaica do Antigo Testamento, veremos que este povo, à semelhança dos gregos, dava uma importância singular à ação de “fazer memória”. Tal atitude fundamenta-se na palavra hebraica זִכָּרוֹן (Zikkarôn), que possui um sentido muito mais profundo que no português: não é apenas lembrar-se de algo, mas implica em fazer visível uma realidade invisível, tornar presença algo que é ausência [1]. Esse é o grande poder da memória: atualiza e torna real algo que já passou, porém não como uma mera lembrança, mas como um apelo, como uma provocação ao presente, como uma cobrança que exige uma atitude no hoje, frente aos acontecimentos passados!

Neste sentido, em todo Pará celebra-se no dia 15 de Agosto o feriado da Adesão do Pará. Atualmente, mais do que nunca, tornou-se necessário “fazer memória” deste acontecimento. Isto é, faz-se necessário recordá-lo não somente como algo distante que já passou, mas como uma realidade passada que nos provoca no presente, que se atualiza no cotidiano e que nos interpela a respeito do hoje. O Pará é uma terra de muita história, porém nós, paraenses, padecemos violentamente do esquecimento. Somos desmemoriados. Daí a necessidade de “fazer memória” de nossa história: o que foi a Adesão do Pará? O que ocorreu naquela manhã do dia 15 de Agosto de 1823? O que este acontecimento tem a nos dizer hoje? O que a memória do mesmo nos provoca no contexto do Pará atualmente? O objetivo desse artigo não é dar respostas, mas provocar perguntas! Para isso, é necessário “Fazer Memória”. Vejamos a seguir os acontecimentos dramáticos que sacudiram a Província do Grão-Pará naquele longínquo ano de 1823.

  1. ANTECEDENTES: O “GRITO DO IPIRANGA” APROXIMA-SE DO NORTE

 Quando as noticias da recente Independência do Brasil chegaram à enorme e misteriosa Província do Grão-Pará em 1822, foram recebidas com receio pelas autoridades portuguesas que governavam a região. No entanto, o povo paraense via neste acontecimento a proximidade da tão sonhada independência e a derrocada definitiva do domínio secular lusitano na região. Nesse contexto, o ano de 1823 começa com a eleição de uma Junta Governamental favorável a adesão do Grão-Pará ao Brasil. Parecia que tudo estava caminhando bem e que, nos céus amazônidas do Norte, logo brilharia o Sol da liberdade. Entretanto, no dia 1º de Março daquele ano, as autoridades portuguesas de Belém armam um golpe e derrubam a Junta Governamental favorável à independência [2]. Os dias que se seguem são de perseguição e prisões sumárias na capital, e todos aqueles que defendem a união da Província do Grão-Pará ao Brasil são caçados e detidos. A situação fica insuportável para os paraenses e o peso da mão lusitana faz-se sentir cada vez mais pela população.

Por esse motivo, no dia 14 de Abril de 1823, o capitão paraense Boaventura da Silva, juntamente com vários partidários da independência (dentre eles o italiano João Balbi, o tenente Diogo Moia, os alferres Domingos Marreiros e Antonio Barreto, o cadete Bernal do Couto, o padre Jerônimo Pimentel e os civis Bernardo de Sousa Franco, Manuel Evaristo e José Pio) pegam em armas e se revoltam na tentativa de dominar Belém e proclamar a Adesão do Grão-Pará ao Brasil. No entanto, a revolta fracassa na capital. Porém, um grupo de sobreviventes foge para a Vila de Muaná, na Ilha do Marajó, e, sob a liderança de Pedro Azevedo, proclamam a Independência do Brasil em terras paraenses no dia 28 de Maio de 1823. A resposta das autoridades portuguesas é imediata, e os independentistas de Muaná são derrotados, transferidos para Belém e humilhados em praça pública [3]. Apesar destas tentativas fracassadas de união com o Brasil, a possibilidade de um desligamento definitivo com a dominação portuguesa no Grão-Pará passava a ser, cada dia, mais real para a população paraense. Um espírito patriótico e avesso ao domínio luso na região já estava formado.

  1. AGOSTO DE 1823: O “GRITO DO IPIRANGA” ECOA EM BELÉM

Na manhã do dia 11 de Agosto de 1823, a população de Belém, capital da Província do Grão-Pará, desperta sobressaltada. Um navio de guerra com a bandeira do Império do Brasil está fundeado na Baía do Guajará, em frente à cidade. Seu capitão é um oficial inglês de apenas 23 anos de idade, John Pascoe Grenfell, mercenário a serviço do imperador D. Pedro I. Sua missão era clara: obrigar à Província do Grão-Pará a aderir ao Império do Brasil. As autoridades portuguesas estavam confusas: como aquele barco tinha chegado ali? Ele estava sozinho ou era apenas um batedor da marinha imperial brasileira que se adiantou para negociar a rendição da cidade? Já a população paraense via naquele navio a culminação de seus anseios: o fim do domínio português na região e o inicio de uma Amazônia para os paraenses. Anseios patrióticos estes que já tinham sido ensaiados nas revoltas que ocorreram meses antes Grenfell estava sozinho, porém utilizou-se da astúcia e informou aos portugueses de Belém que a esquadra imperial estava fundeada em Salinas e, caso a cidade não se rendesse e aderisse à independência, haveria derramamento de sangue [4]. Após dias de deliberação, no dia 15 de Agosto de 1823, a enorme e misteriosa Província do Grão-Pará aderia à Independência e passava a fazer parte do Brasil.

  1. OUTUBRO DE 1823: O “GRITO DO IPIRANGA” CONVERTE-SE EM UM GRITO DE DOR E INJUSTIÇA

No dia 15 de Outubro de 1823, vendo que os portugueses continuavam no poder mesmo depois da Adesão à Independência, a grande liderança liberal paraense, o cônego Batista Campos, que representava os anseios populares da época, toma o poder da cidade e expulsa os portugueses dos cargos políticos e econômicos da Província. Parecia que agora, de fato, encerrava-se o domínio português na região. No entanto, na noite do dia seguinte, alguns soldados paraenses, revoltados com os portugueses e motivados pela embriaguez, promovem uma série de atos violentos contra comércios e famílias portuguesas, incitando um espírito de “desforra” contra os mesmos [5]. Era a brecha que as antigas autoridades portuguesas depostas por Batista Campos queriam. Imediatamente, tais autoridades lusas recorreram a Grenfell, persuadindo o jovem oficial inglês de que o cônego era o responsável por aquela desordem, além de ser inimigo da paz e do imperador. Com isso, o outrora “herói” da adesão do Norte ao Brasil, prende Batista Campos e encarcera sumariamente a várias pessoas inocentes, que não tinham nenhuma relação com as arruaças cometidas na noite anterior. No total foram 256 pessoas – entre mulheres, homens, velhos e jovens. Lançadas, por ordem de Grenfell, no porão de um Brigue chamado “Diligente” (que depois passou a chamar-se “Palhaço”), sem nenhum tipo de julgamento. Essas pessoas ficaram um dia inteiro presas dentro deste porão insalubre e apertado, o que resultou na morte de todas. O historiador paraense Benedicto Monteiro, descreve este dramático episódio da seguinte maneira:

“(…) os 256 paraenses pobres ficaram lá presos e amontoados nos porões escuros e infectos desse barco. E sem quaisquer providências das autoridades, sofrendo um processo de terrível tortura. Em um determinado momento de desespero e dramática aflição, gritaram por água para matar a sede, que já estava se tornando insuportável. O calor que fazia nos porões totalmente fechados era sufocante. (…) O escuro, o calor, o espaço exíguo, o contato dos corpos suados, sedentos e famintos, foram desesperando aquelas pobres criaturas que nem sabiam porque estavam sofrendo aquela terrível punição. Começaram então os gritos lancinantes. Eram de angústia e de desespero os pedidos de socorro e as mais terríveis imprecações. A única providência que ocorreu aos guardas para acalmar os ânimos desesperados foi jogar cal sobre os presos, que já estavam embolados. (…) Essa providência acabou silenciando os prisioneiros, levando-os à morte. Quatro pessoas apenas escaparam, mas não tiveram forças para relatar tudo sobre os terríveis momentos de desespero antes de morrer. Morreram também, sem nenhuma assistência, em conseqüência desse enterro de pessoas no porão de um navio” [6].

Assim iniciavam-se os primeiros dias do Grão-Pará como um Estado do Brasil: com derramamento de sangue inocente! Após a derrocada de Batista Campos, os portugueses voltaram aos cargos políticos e econômicos da Província. Tudo voltava a ser como antes. O Pará aderia ao Brasil, mas continuava uma colônia dos poderes e interesses estrangeiros. Como afirma o historiador Antônio Eutalio Corrêa, em sua obra “A Fragata Leopoldina e a Missão Grenfell”: No Grão-Pará o ‘grito do Ipiranga’ ecoou até os salões nobres do palácio imperial em 15 de Agosto de 1823. Entretanto, em meio ao horizonte de liberdade, o poder público foi dividido entre portugueses e ingleses, o poder paralelo de Grenfell e a Junta Provisória do Pará não permitiu a permanência ‘mítica’ da liberdade. (…) E dessa forma, e por muito tempo restou aos paraenses, além da apologia de Batista Campos, a retórica da trágica morte de centenas de defensores da liberdade no brigue ‘palhaço’. (…) Sendo assim, deixando juntamente com os corpos ‘lívidos, cobertos de sangue, dilacerados’, no porão do brigue Diligente, o mito da ‘adesão à independência’, sob a imagen visionária da liberdade política de um povo” [7].

  1. O HOJE: A NECESSIDADE DE UM “GRITO DO IPIRANGA” PERMANECE ATUAL

Os acontecimentos que abalaram a Província do Grão-Pará em seus primeiros dias como parte do Brasil continuam ressoando de forma inconsciente na memória do povo paraense. Por mais que a maioria das pessoas não faça desses acontecimentos de 1823 uma realidade consciente, isto é, lembrada em seus pormenores em manifestações culturais, artísticas e intelectuais; na vivência social do Estado do Pará, tais acontecimentos surgem como um fator inconsciente que sempre “fala” pelas entrelinhas e se faz presente de forma indireta em situações de injustiça, de desvalorização e bloqueio ao protagonismo do paraense como agente e construtor de sua própria história, e como principal lugar de fala na história da Amazônia.

Após fazermos memória dos fatos ocorridos durante o processo de Adesão do Pará à Independência, podemos notar como nomes, personalidades importantes e fatos foram simplesmente esquecidos de forma visível por boa parte da população paraense, no entanto, a consciência de que nosso Estado continua preso a amarras colonialistas parece não cair no esquecimento, permanece no coração e memória do paraense como uma herança sombria que se perpetuou com o tempo. O paraense do dia a dia não entende de onde vem tal sentimento pessimista com relação a seu papel na história atual do Brasil; ele experimenta a sensação de estar excluído do palco dos grandes acontecimentos históricos da nação, mas não sabe o porquê, não sabe expressar isso por meio de um discurso histórico. E isso ocorre justamente por causa do esquecimento.

Neste sentido, uma breve atitude de “fazer memória” da Adesão do Pará já nos revela que este sentimento inconsciente na vivência do paraense já traz à tona a consciência de um fato concreto e grandioso: o Pará tem história! O povo paraense já foi e já tentou ser o protagonista de seu destino e de sua história. Foi silenciado diversas vezes pelas estruturas de injustiça dos determinados tempos históricos a que esteve submetido, mas resistiu, sobreviveu, venceu, mesmo quando historicamente perdeu. O despertar da consciência de que o povo paraense possui uma história rica e dramática já e a grande vitória daqueles que um dia entregaram suas vidas por essa região. Esse despertar, esse “fazer memória”, quase que de maneira imediata nos provoca a atualizarmos o “grito do Ipiranga” que ecoou nesses rios e matas do Norte durante o conturbado ano de 1823, como também nos dramáticos anos da Cabanagem, nos dourados anos da Bell Époque, durante os grandes projetos na Amazônia do século XX e assim por diante. E hoje? Onde esta necessidade de um “Grito do Ipiranga” se atualiza? Esse é o desafio do “fazer memória” de nossa geração.

REFERÊNCIAS UTILIZADAS:

[1] Cf. SILVA, Vanderson de Sousa. Teologia da Anamnese: aspectos bíblicos e teológicos. In: Revista Telecomunicação. Porto Alegre. V. 45. nº 3. pp. 269-284. set-dez 2015.
[2] Cf. GALANTI, Raphael M. Compêndio de História do Brazil. Tomo IV. Duprat & Companhia. São Paulo, 1905, pp. 158-159.
[3] Cf. CORRÊA, Antonio Eutalio. A fragata Leopoldina e a missa Grenfell no Pará. Editora Meridional: Belém, 2009, p. 53.
[4] Cf. CORRÊA, Antonio Eutalio. A fragata Leopoldina e a missa Grenfell no Pará. Editora Meridional: Belém, 2009, p. 52.
[5] Cf. MUNIZ apud CORRÊA, Antonio Eutalio. A fragata Leopoldina e a missa Grenfell no Pará. Editora Meridional: Belém, 2009, p. 61.
[6] MONTEIRO, Benedicto. História do Pará. Editora Amazônia: Belém, 2005, p. 103.
[7] CORRÊA, Antonio Eutalio. A fragata Leopoldina e a missa Grenfell no Pará. Editora Meridional: Belém, 2009, p. 90.

SOBRE O AUTOR

IMG 20190815 WA0056 760x1024 - O APELO DE FAZER MEMÓRIA: A ADESÃO DO PARÁ À INDEPENDÊNCIA DO BRASIL - Por Arnin BragaArnin Rommel Pinheiro Braga (1992) é Licenciado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) – onde recebeu o Prêmio Marcelino Champagnat de Mérito Acadêmico – e mestre em Filosofia pelo Programa de Pós Graduação em Filosofia (PPGFIL) da Universidade Federal do Pará (UFPA). Em seus estudos filosóficos, possui experiência nas áreas de História da Filosofia, Fenomenologia e Existencialismo, além de temas relacionados com Fenomenologia e Filosofia da Religião. Possui conhecimentos em história do Pará e busca contribuir com a divulgação da mesma por meio de artigos, publicações e desenhos. Atualmente vive em Belém, sua terra natal, e é professor no Curso de Bacharelado em Filosofia da Faculdade Católica de Belém (FACBEL).

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