Nota do Editor:

Janeiro é definitivamente um mês muito especial para todos os nortistas. Mês em que se celebrou os 403 anos de Belém, no dia 12. Hoje, 23, se celebra o aniversário de outra importante cidade, a jovial Paragominas. É também o mês de rememorar os 184 anos da cabanagem, um dos movimentos populares mais proeminentes da história do Brasil. Por isso, publicamos aqui o texto que nos foi presenteado pelo filósofo Arnin Braga, que narra de forma bastante didática este episódio que marca a história brasileira, sobretudo, da região norte – a luta cabana.


A GUERRA DA REGIÃO NORTE: OS 184 ANOS DA CABANAGEM NO PARÁ

Por Arnin Braga

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A tomada de Belém pelos cabanos na madrugada do dia 7 de Janeiro de 1835. Atrás de vê o Palácio dos Governadores, atual Palácio Lauro Sodré. Desenho: Arnin Braga

Na madrugada do dia 6 para o dia 7 de Janeiro de 1835, enquanto as autoridades civis e militares de Belém dormiam cansados, após vários festejos em comemoração ao dia de reis; os cabanos – índios, tapuios, negros e a elite branca e liberal paraense descontente com o Império – saíam de seus esconderijos e davam inicio a Cabanagem, a revolta popular que, em palavras do historiador Caio Prado Jr., foi “(…) o mais notável movimento popular do Brasil (…) o único em que as camadas mais inferiores da população conseguem o poder de toda uma província com certa estabilidade” [1].

Saídos de lugares como a antiga “mata do Cacoalinho” (atrás do atual polo-joalheiro São José Liberto); do antigo “Largo da Memória” que se localizava na “Estrada de Nazareth” (atual avenida Nazaré, na Praça Infante Dom Enrique, próximo ao Colégio Nazaré); e do antigo sitio “Bacury”, que existia no final da “Estrada da Pedreira” (antigo nome da Av. José Bonifácio, próximo ao Santuário de Fátima); armados com mosquetes, flechas e facões… os cabanos se dirigiram silenciosamente em direção a zona urbana daquela Belém dos começos do século XIX [2].

Naquela madrugada, a população despertou assustada com sons de tiros e gritos que diziam: “Mata marinheiro!”, “Mata bicudo!” (expressões utilizadas pela população paraense pobre para referir-se a elite portuguesa dominante). O Governador da Província, Bernardo Lobo de Souza, foi assassinado nas escadarias do Palácio dos Governadores; enquanto o Comandante das Armas, Joaquim José da Silva Santiago, foi alvejado e morto no que hoje é a Rua Joaquim Tavora, esquina com a Igreja de São João Batista [3]. Logo depois, os cabanos dominaram o paiol de armas e munições que ficava na atual Igreja das Mercês, libertaram todos os presos políticos que estavam acorrentados nas prisão de Belém (que ficava na atual Rua Conselheiro João Alfredo) e tomaram o Forte do Castelo [4]. Pela manhã do dia 7 de Janeiro de 1835, a capital da enorme Província do Grão-Pará, Belém, estava tomada. A Revolução Cabana tinha triunfado. A população belenense, oprimida durante séculos pelo domínio das elites portugueses e da Corte Imperial, bradava vivas a revolução e saudava as tropas cabanas. Naquela manhã, os cabanos liderados pelos irmãos Antônio e Francisco Vinagre, e pelo guarda municipal Eduardo Angelim, libertaram da prisão ao ativista paraense e dono de terras Félix Antônio Malcher, que foi eleito como o Primeiro Governador Cabano.

Dominada a cidade de Belém, as demais cidades do interior da enorme Província do Grão-Pará, começam a derrubar o governo imperial e aderem ao movimento cabano. Todo o Norte passa a ser cabano. Somente a Ilha de Tatuoca e as cidades de Cametá e Gurupá continuam fiéis ao governo imperial [5]. O Império do Brasil, naquele tempo governado pelos regentes, inicia imediatamente a repressão e “pacificação da Amazônia”, dando inicio à uma guerra civil que durou longos cinco anos, na qual as tropas imperiais promoveram um extermínio em massa da população paraense. Estima-se que em torno de 35.000 a 40.000 pessoas morreram no conflito. O equivalente à 40% da população amazônida daquela época. Tribos indígenas foram extintas, populações ribeirinhas, negras e caboclas dizimadas, Belém tornou-se ruína. O Império não teve misericórdia.

Esta que é a mais importante revolta popular da história do Brasil é esquecida por todos, inclusive pelos próprios paraenses, e o motivo de tal esquecimento é explicitado pelo historiador Júlio Chiavenato, em sua obra “As lutas do Povo Brasileiro: do ‘descobrimento’ a Canudos”: “A Cabanagem é a única revolução em que o povo chegou ao poder no Brasil. […] Uma revolução tão perigosa para as classes dominantes que o poder não procurou aplicar nenhuma lição: exterminaram-se os revolucionários, literalmente. Todos os documentos do governo foram destruídos, tribos inteiras foram chacinadas. A própria historiografia ‘esqueceu-se’ dessa revolução sem heróis ou santos” [6].

Por esse motivo, 184 anos depois, por meio de alguns desenhos feitos por mim, gostaria de relembrar a todos sobre a existência desta grande revolução ocorrida no Norte do Brasil, recordando que dentro de nós ainda ferve o sangue cabano e ressaltando o quão forte e destemido pode ser o paraense… quando quer! Pois já dizia o ditado paraense: “Não venha forte que sou do Norte!”. A seguir, apresento alguns desenhos feitos por mim e imagens que buscam explicar o contexto e, principalmente, os principais grupos envolvidos na Cabanagem.

1. ANTECEDENTES: A ADESÃO DO GRÃO-PARÁ AO IMPÉRIO DO BRASIL

A Província do Grão-Pará, nos tempos coloniais, não fazia parte do Brasil e tinha relações diretas com Lisboa. Com a Independência do Brasil, em 1822, D. Pedro I quis anexar aos territórios brasileiros a enorme Província do Grão-Pará que, naquele tempo, continuava pertencendo a Portugal. Por isso, em 1823, o imperador envia o capitão inglês Grenfell ao Norte para obrigar a Província do Grão-Pará a aderir à Independência do Brasil, adesão esta que ocorreu no dia 15 de Agosto de 1823 (O Pará foi o último Estado a aderir à Independência). A população pobre e a elite liberal paraense esperavam que a adesão ao Brasil finalmente tiraria as elites portuguesas do poder e daria mais espaço aos próprios paraenses. No entanto, não foi isso que ocorreu. Os portugueses continuaram no poder, agora mantidos pelo Império! Depois de 12 anos sem mudança alguma, a população paraense se revoltou e estourou a Cabanagem!

2. QUEM ERAM OS CABANOS

– Caboclos, índios e negros

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Desenho: Arnin Braga

O grosso das tropas cabanas eram compostas por caboclos, índios e negros. Cada grupo aderiu ao movimento por motivações próprias, porém semelhantes:

– Caboclos e tapuios: Mesmo com o Grão-Pará aderindo ao Império do Brasil, as camadas mais pobres da população, os caboclos (pescadores, agricultores, pequenos comerciantes, trabalhadores) – fruto da mestiçagem entre brancos, negros e índios – viam-se ainda explorados pelas elites portuguesas e viviam em extrema miséria, em pobres cabanas à beira dos rios (daí o nome “Cabanagem”). Eles viam no movimento cabano a oportunidade de instaurar um governo mais justo que garantisse meios de sobrevivência mais dignos.

– Negros: Escravizados e forçados a trabalhar em fazendas de algodão, arroz, criação de gado e extração das drogas do sertão; viam na Cabanagem a chance de serem livres, pois o movimento cabano proclamava a abolição da escravidão.

– Indígenas: As principais tribos indígenas que aderiram à Cabanagem foram os Mundurucus, Mawes e Muras, além de muitas outras tribos indígenas espalhadas pela Amazônia. Os índios viam no movimento cabano a oportunidade de mais espaço nas decisões políticas e respeito por suas terras e cultura, visto que o movimento Cabano pregava a igualdade entre brancos, tapuios, negros, mestiços e etc.

– A elite liberal paraense

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Desenho: Arnin Braga

Durante o movimento cabano, todas as camadas paraenses em geral aderiram à revolta, inclusive as elites liberais paraenses [7]. Segundo o padre e historiador Raphael Galanti [8], naquela época reinava no Grão-Pará uma disputa entre dois partidos: Os “Caramurus”, compostos em sua grande maioria pela elite portuguesa e de caráter conservador; e a “Sociedade Patriótica, Instrutiva e Filantrópica”, composta pela elite fazendeira paraense, de cunho liberal… que por muito tempo foram liderados pelo Cônego Batista Campos.

Eles foram os idealizadores do movimento da Cabanagem e insuflaram as camadas mais pobres a apoiarem o movimento. Seu principal interesse era tirar às elites portuguesas do poder e de fato entregar o “Grão-Pará aos paraenses”.

Apesar do apoio inicial, quando os combates entre cabanos e imperiais endureceram, estas elites foram pouco a pouco abandonando o movimento, fazendo com que, ao final de tudo, fossem as camadas mais pobres que tomassem o rumo da revolução e lutassem até o fim.

3. AS FORÇAS DE REPRESSÃO DO IMPÉRIO

– Guarda Nacional

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Desenho: Arnin Braga

Como a maioria das tropas de baixa patente nativas do Grão-Pará aderiram à Cabanagem, as guardas municipais tanto de Belém quanto das cidades do interior nada ou pouco puderam fazer para impedir os cabanos de tomarem o poder. Com o Norte completamente dominado pela Cabanagem, o governo Imperial recorreu à Guarda Nacional para “restaurar e pacificar a Amazônia”.
Várias expedições saíram do Rio de Janeiro em direção à Amazônia para lutar contra os cabanos nos anos de 1835-1840, no entanto, estas não encontravam apoio nenhum por onde passavam. As cidades nordestinas, descontentes com o Império, não disponibilizavam voluntários para engrossar a Guarda Nacional, o que levou a estas tropas serem compostas, em sua grande maioria, por cariocas.

– Mercenários Brummer’s e presos libertos para lutar

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Desenho: Arnin Braga

Como em 1835 o Império lutava contra duas revoluções ao mesmo tempo (a Cabanagem e a Farroupilha), o governo regencial não dispunha de tropas suficientes. A primeira solução para a falta de contingente na luta contra a Cabanagem foi pedir voluntários nas cidades nordestinas por onde a esquadra passasse. Bahia, Pernambuco e Maranhão se recusaram a apoiar a repressão imperial a seus irmãos no Norte [9].

Por isso, a única alternativa do Império foi entrar nas prisões e recrutar à força assassinos, ladrões, prisioneiros políticos e etc, e enviá-los para sufocar a Cabanagem.

Outra solução encontrada pela Regência para aumentar o contingente militar foi contratar mercenários alemães, os “Brummer’s”. Segundo o Prof. Dr. Leomar Tesche, em seu artigo “Os legionários de 1851: guerreiros, liberais e turnen”, cerca de 500 mercenários alemães foram contratados pelo Império em Hamburgo para lutar contra a Cabanagem [10].

4. O DESFECHO FINAL E O LEGADO

Depois de resistir por mais de um ano contra as investidas imperiais, as tropas cabanas são expulsas de Belém em Maio de 1836. O último líder cabano, Eduardo Angelim, é preso em Outubro daquele mesmo ano. Porém, a luta continua nas cidades do interior até o ano de 1840, quando os últimos redutos cabanos de resistência são exterminados pelas tropas imperiais.

Apesar da grandiosidade desta que foi a única revolução popular que tomou o poder de uma Província no Brasil, hoje mais do que nunca ela caiu no esquecimento não somente dos brasileiros, mas principalmente dos paraenses. A Cabanagem deixou um legado histórico importantíssimo ao povo paraense. O próprio monumento à Cabanagem (presente no bairro do Entroncamento em Belém), segundo o seu projetor, o célebre Oscar Niemeyer, quer revelar a ideia da grandiosidade deste movimento: uma mão que se estende para frente e para cima, apontando ao infinito; a rachadura existente simboliza a derrota sofrida pelo movimento cabano, porém, assim como o monumento, mesmo rachado, continua apontando para a frente, a Cabanagem, mesmo derrotada, ainda aponta para o futuro. Neste sentido, é preciso cada vez mais que façamos memória deste que, em palavras do historiador Julio Chiavenato, foi o maior movimento popular do Brasil, para que a memória de nossa história paraense permaneça sempre preservada e nos aponte, tal como o memorial da Cabanagem, caminhos para um futuro mais justo.

Referências:

[1] PRADO JUNIOR apud CAMPOS, Flávio de; MIRANDA, Renan Garcia. A escrita da história. São Paulo: Escala Educacional, 2005.

[2] Cf. GALANTI, Raphael M. Compêndio de História do Brazil. Tomo IV. Duprat & Companhia. São Paulo, 1905, p. 371.

[3] Cf. GALANTI, Raphael M. Compêndio de História do Brazil. Tomo IV. Duprat & Companhia. São Paulo, 1905, p. 372.

[4] Cf. GALANTI, Raphael M. Compêndio de História do Brazil. Tomo IV. Duprat & Companhia. São Paulo, 1905, p. 372.

[5] Cf. GALANTI, Raphael M. Compêndio de História do Brazil. Tomo IV. Duprat & Companhia. São Paulo, 1905, p. 381.

[6] CHIAVENATO, Júlio José. As lutas do povo brasileiro: do “descobrimento” a Canudos. 2 ed. São Paulo: Moderna, 2004. p. 112.

[7] Cf. GALANTI, Raphael M. Compêndio de História do Brazil. Tomo IV. Duprat & Companhia. São Paulo, 1905, p. 371.

[8] Cf. GALANTI, Raphael M. Compêndio de História do Brazil. Tomo IV. Duprat & Companhia. São Paulo, 1905, pp. 356-357.

[9] Cf. GALANTI, Raphael M. Compêndio de História do Brazil. Tomo IV. Duprat & Companhia. São Paulo, 1905, p. 378.

[10] Cf. TESCHE, Leomar. OS LEGIONÁRIO DE 1851: GUERREIROS, LIBERAIS E TURNEN. Salão do Conhecimento, [S.l.], ago. 2014. ISSN 2318-2385. Disponível em: <https://www.publicacoeseventos.unijui.edu.br/index.php/salaoconhecimento/article/view/3748>.


Sobre o autor:

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Arnin Braga é professor de Filosofia no Ensino Médio e no Ensino Superior. Licenciado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (onde recebeu o Prêmio Marcelino Champagnat de Mérito Acadêmico) e mestrando em Filosofia pelo Programa de Pós Graduação em Filosofia (PPGFIL) da Universidade Federal do Pará (UFPA). Em seus estudos filosóficos, possui experiência nas áreas de História da Filosofia, Fenomenologia e Existencialismo, além de temas relacionados com Fenomenologia e Filosofia da Religião. Possui conhecimentos em história do Pará e busca contribuir com a divulgação da mesma por meio de artigos, publicações e desenhos. Atualmente vive em Belém, sua terra natal.

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