destaque 453394 32 - Polícia Militar tem pouco a comemorar em seus 199 anos
Cabo Rayrisson Garcia (na cadeira de rodas) e o Cabo Luiz Passinho (em pé). Vítimas de violência com sequelas para a vida. (Foto: Maycon Nunes/Diário do Pará)

“Desde 1818”. Poderia ser a assinatura temporal usada para passar a credibilidade pelo tempo de existência de algum estabelecimento comercial, como muitos usam. Mas esse é o tempo de existência da Polícia Militar do Pará (PM-PA), que completa 199 anos neste 25 de setembro sem ter o que comemorar na data do quase bicentenário, já que hoje a realidade da PM do Pará é trabalhar com 16 mil homens abaixo do número considerado ideal para policiar o Estado, e ainda perde quase quatro policiais todo mês. Até semana passada foram 32 PM´s mortos no Pará este ano. Mas o ano ainda não acabou e o número de policiais mortos já superou 2016, quando 27 policiais morreram no exercício das funções.

A falta geral de condições de trabalho é ingrediente decisivo para a insegurança pública do Pará, vista e sentida diariamente pelo cidadão nas ruas, nos bancos e outros estabelecimentos comerciais e até nos transportes coletivos, onde já ocorreram quase 800 assaltos este ano, o último na semana passada em Belém com um saldo de três pessoas mortas.

O cabo Edivan Ferreira, presidente da Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar e Corpo de Bombeiros Militar do Pará (ACSPMBM), conta que faltam de kits de armamentos, coletes à prova de balas e até combustível para as viaturas dos policiais. “Tenho quase 30 anos na polícia e a cada governo apenas aumenta o sucateamento. Assim como está hoje, é impossível dar a segurança que o cidadão do Pará precisa”, ressaltou.

PRECARIEDADE

Ferreira diz que até mesmo as condições dos quartéis são precárias, e isso se agrava ainda mais no interior. “Muitos alojamentos não possuem sequer um banheiro decente para uso dos policiais. O tratamento dado à área de segurança pelo governo é ultrajante”, afirma Ferreira, ressaltando que, mesmo que houvesse algum motivo para celebrar o aniversário da PM, isto não seria possível.

“Nós tínhamos um subsídio para todo ano celebrar a data do aniversário pelo menos simbolicamente na associação, mas isso também foi cortado”, disse.

MULHERES

Há mais de um ano Gislene Santos, de 36 anos, resolveu mobilizar outras mulheres – mães, irmãs e esposas – a também lutarem pelos direitos dos policiais. Pela legislação interna da Polícia Militar, os seus agentes não podem fazer greve. Mas, com o movimento, as mulheres impediram os policiais de exercer suas funções por cerca de dez dias, em fevereiro do ano passado.

Junto com o movimento nasceu a Associação de Esposas e Familiares de Praças do Pará, que pressionou o governo e conseguiu algumas vitórias, de acordo com Gislene, hoje vice-presidenteda Associação. “Conseguimos que eles recebessem o auxílio fardamento, que estava atrasado, e também o auxílio-alimentação. Agora estamos lutando pela melhora das condições de atendimento médico”, diz, sobre o atendimento do Instituto de Assistência à Saúde do Estado do Pará que, segundo Gislene, perdeu médicos credenciados e tem até cota para urgência e emergência.

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“MINHA VIDA MUDOU”

Aos 28 anos, o cabo Rayrisson Garcia viu sua vida mudar na noite de 17 de agosto de 2015, quando levou dois tiros nas costas na rua Santa Lúcia, próximo da rodovia Mário Covas. Ele é grato por, naquela mesma noite, seu filho mais velho, à época com 7 anos, não ter sido atingido.

Garcia voltava da casa da sua sogra com o menino, que assistiu quando o pai foi alvejado por criminosos que, à bordo de uma motocicleta, balearam ainda outro homem que estava parado perto de Garcia, e que, segundo informações posteriores, era o verdadeiro alvo e foi morto com vários tiros.

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Sandra Maria Nunes perdeu o filho policial. (Fotos: Maycon Nunes/Diário do Pará)

“Os tiros não eram para mim, mas infelizmente minha vida mudou, e hoje preciso vencer uma batalha diferente a cada dia, mas agradeço muito a Deus por nenhum tiro ter atingido meu filho”, conta Garcia, que também é pai de outro menino. Garcia sustenta a família com o orçamento apertado da aposentadoria, já que os gastos aumentaram com os tratamentos de reabilitação.

Ele ainda enfrenta falta de assistência e inclusão. “A assistência social do Estado parece aquelas mulheres carpideiras, que surgem no dia do velório, choram e depois nunca mais vemos. Eu e outros policiais na mesma condição não recebemos nenhum tipo de apoio, mesmo porque não existe nenhum projeto de inclusão social,esportiva ou de qualquer natureza”, conta ele.

NA GUERRA DAS RUAS, POLICIAS PERDEM A VIDA

Nas ruas, a relação entre policiais e criminosos é desigual. Fragilizados pela falta de equipamentos de proteção e armamentos, os policiais enfrentam criminosos bem armados e protegidos pela sensação de impunidade.

Nesse cenário, no dia 8 de dezembro do ano passado, o sargento Mário Jorge Nunes, de 48 anos, foi atingido com tiros que atravessaram o seu colete que deveria ser à prova de balas. Ele estava uniformizado quando desceu do ônibus coletivo, voltando para casa, no Jurunas. Depois de 30 dias no hospital, o sargento não resistiu aos ferimentos. Sua mãe, Sandra Maria Nunes, 70, carrega a dor da perda do filho e a luta para garantir seus direitos, que não estão sendo cumpridos pelo Estado. Depois de muita burocracia, somente agora, com a ajuda da Associação em Defesa dos Direitos dos Militares do Pará (Addmipa), ela conseguiu dar entrada no processo de pensão pelo filho, mas ainda sem prazo para que seja feita a concessão do benefício. “Deixou uma saudade e uma dor tão grande que nem sei explicar”, contou, muito emocionada ao falar do filho.

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SEM CONCLUSÃO

O coordenador da Addmipa, cabo Luiz Passinho, conta ainda que o inquérito da morte do policial só foi aberto em abril, com 4 meses de atraso. “Até hoje não foi concluído”. O colete, segundo ele, desapareceu. Passinho, aos 30 anos também corre o risco de ser aposentado por invalidez. Há 2 anos, em um dia de folga e sem o fardamento, ele foi baleado no bairro onde morava por homens em uma motocicleta.

O QUE DIZ A SECRETARIA DE SEGURANÇA

Em nota a SEGUP (Secretaria de Estado da Segurança Pública e da Defesa Social) informa que ainda no mês de outubro deste ano, deve iniciar o curso de formação para contratar cerca de 2 mil novos policiais militares, aprovados no último concurso realizado em 2016

Porém, o curso deve durar em média 10 meses

Possivelmente esses policiais só estarão nas ruas em agosto de 2018, quase um ano de espera

(Cléo Soares/Diário do Pará)

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